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    Portugal pode ser muito competitivo enquanto nação de talento

    24.04.2017


























    Jonas Prising, CEO e Chairman da ManpowerGroup e Mara Swan, Executive Vice-President da ManpowerGroup revelam


    Portugal pode ser muito competitivo enquanto nação de talento


    Jonas Prising, CEO e Chairman da ManpowerGroup, e Mara Swan, Executive Vice-President da ManpowerGroup, confirmam a mudança permanente nas exigências do mercado de trabalho e a dificuldade em formar para os empregos do futuro. A competência identificada como imprescindível dá pelo nome de “learnability”, ou seja, a capacidade de aprendizagem permanente.


    Vida Económica - Como é possível o equilíbrio entre uma reserva de competências/talentos e o incógnito do futuro mercado de trabalho?

    Jonas Prising - Baseando-nos nas mudanças que estão a acontecer no mercado de trabalho, sabemos que este se está a polarizar entre as competências que se têm e as que não se têm. A primeira questão que as sociedades e as organizações têm de resolver é a necessidade de uma “skills revolution” (revolução de competências) porque, quem não tem as capacidades tem de se “up-skill” (aumentar as competências), “re-skill” (refrescar conhecimentos), "be skilled into" (ser introduzido nas competências) para um nível em que possa participar no mercado de trabalho. Esta é a primeira lacuna que temos de colmatar. Quanto às competências do futuro é muito difícil de prever quais as que irão ser necessárias. Os empregadores são maus a prever – dizem o que precisam agora, mas não sabem aquilo que precisarão daqui a uma série de anos. As instituições de ensino queixam-se precisamente disso, mas é a realidade dos empregadores. Acreditamos que o desejo e a capacidade de aprender são determinantes para uma futura carreira de sucesso e para a empregabilidade, daí a necessidade de aprendizagem ao longo da vida (“life long learning”) e de “learnability”, a capacidade contínua de aprender. 

    Mara Swan - Existem competências técnicas e “soft skills” (competências interpessoais). Nas competências técnicas − que não sabemos quais serão no futuro as mais requisitadas −  sabemos que teremos de ser melhores com números, mas também as “soft skills” como a empatia, criatividade, comunicação, colaboração. Se é uma pessoa jovem hoje deverá ter uma boa combinação de competências técnicas – compreender as matemáticas - e saber comunicar eficazmente.

    JP - A evolução da tecnologia leva a que muito do trabalho transacionado, que não acrescenta valor, possa ser automatizado e será automatizado. O que acrescenta valor ao trabalho é a interação humana, ou seja, como alguém utiliza a informação, como a comunica, daí a importância das “soft skills”.

    MS - Existe uma grande pressão para encurtar o tempo de estudos. Nos Estados Unidos estamos a tornar todos os programas de estudos menos longos. Resolve um pouco o problema da preparação técnica, mas não totalmente. Encorajamos a trabalhar em qualquer coisa, desde “baby sitting” a entrega de jornais, jardinagem, fazer voluntariado, qualquer experiência de trabalho, com remuneração ou não. Ter a capacidade de levar a cabo uma atividade profissional é muito importante para a autoestima e para a entrada no mercado de trabalho. Atualmente existe um conflito no mercado de trabalho porque as empresas querem uma pessoa pronta a trabalhar, que saiba fazer x y z, mas ao mesmo tempo x y z não será necessário para o ano. Se conseguir alguém que tem “learnability”, podem fazer a b c para o ano.  Se o objetivo é ter um trabalho a curto prazo ou ter uma carreira, o melhor que posso dizer é tenha uma elevada “learnability”, boas bases matemáticas e soft skills.


    VE - O trabalho temporário pode então ser uma solução para esta imprevisibilidade do mercado?

    JP - O trabalho temporário pode ser uma solução. O valor do trabalho temporário é muito elevado porque é uma forma de começar a fazer parte da força de trabalho. Tem-se uma experiência, goste-se ou não, pelo menos fica-se com uma ideia do que é o mercado de trabalho e o próprio trabalho. Colaboramos com agências de trabalho temporário e, em alguns casos, com agências públicas. Em Portugal não colaboramos tanto a nível público porque existem situações em que esta atividade se constitui como um monopólio do governo. A nossa missão, com qualquer interação que temos com um candidato, é arranjar um emprego. Não existe nenhum valor gerado para nós, cliente e candidato se não arranjarmos um emprego. Somos peritos em combinar, encaixar pessoas com as necessidades do mercado e em melhorar as suas competências.


    Medidas restritivas na legislação do trabalho temporário são obstáculo para a competitividade

    VE - A legislação para o trabalho temporário em Portugal, comparativamente com outros países com menos burocracia e salários mais elevados, é um obstáculo no combate ao desemprego e na criação de novos postos de trabalho?

    JP - As medidas restritivas são efetivamente um obstáculo à entrada no mercado de trabalho, sobretudo para as pessoas mais jovens. A legislação baseia-se no passado quando a maioria dos empregos, considerados “normais”, eram a tempo inteiro e permanentes. Toda a legislação é baseada na estabilidade daquele tipo de emprego, mas o mundo evolui muito rapidamente, é mais volátil, mais disruptivo, tecnológico. Pode-se trabalhar de muitas formas. Todavia, em Portugal, e em muitos outros países, existe uma maneira “normal” de trabalhar e uma “não normal”. A evolução será passar de uma única forma “normal” de trabalhar para todas serem formas de trabalhar “normais” e não significa que todas as pessoas serão freelancers, mas haverá muitas formas para as organizações contratarem talento e como o talento quer ser contratado, dependendo da idade, circunstâncias da vida, daquilo que precisa a empresa e os criadores das políticas, portanto, os governos, têm de facilitar isto porque ao bloquear o futuro, cria barreiras à mudança, à competitividade, em muitos casos exclui pessoas da força de trabalho como, por exemplo, as mulheres, se não existirem políticas progressistas quanto à forma como as mulheres participam na força de trabalho; os jovens que não conseguem entrar no mercado de trabalho porque as empresas não querem contratar essas pessoas porque é demasiado arriscado. Ao criar esta situação muito difícil, cria-se uma sociedade com duas classes e isto verifica-se muito fortemente no sul da europa. Alguns países já fizeram mudanças, a Espanha mudou alguma legislação, a França, a Itália e Portugal também já introduziu algumas mudanças, mas ainda há um longo caminho a percorrer para ter um mercado completamente competitivo no sentido em que o mercado está a evoluir.


    Mercado de trabalho deve aproveitar a experiência das pessoas mais velhas

    VE - Aborda muito o emprego para os jovens, mas o envelhecimento demográfico da população é uma realidade europeia a que Portugal não escapa. Como podem ser integradas pessoas mais velhas no mercado de trabalho?

    JP - É uma oportunidade fabulosa poder aproveitar pessoas com experiência, que ainda têm “learnability”, isto é, o desejo e capacidade aprender e que podem construir, juntamente com os jovens, uma força de trabalho muito competitiva. Em muitos casos o facto de receber uma pensão é impeditivo aceitar um emprego porque perde o direito à pensão e este é um exemplo em que a legislação cria uma barreira quando a realidade é uma mudança demográfica, pessoas a envelhecer e precisamos das pessoas a trabalhar mais tempo. Devemos encorajar as pessoas mais velhas a optar por um trabalho, quem sabe, a meio tempo.

    MS - As pessoas vivem mais tempo e muitas não pouparam o suficiente porque vão viver até aos 95 anos e não vão conseguir sobreviver apenas com a sua pensão.


    Tecnologia não substitui pessoas

    VE - Se muitas das tarefas hoje feitas por pessoas podem ser feitas por máquinas, isso não significa uma diminuição de postos de trabalho e consequente aumento do desemprego?

    JP - Haverá alguns postos de trabalho que serão eliminados, a vasta maioria dos empregos sentirá um impacto das tecnologias, mas não se trata de substituição de pessoas pela tecnologia porque o cerne da questão não é aquilo que a tecnologia pode fazer, mas aquilo que nós queremos que a tecnologia faça. Por exemplo, os aviões podem voar sem piloto há muitos anos e quando existe um acidente na maioria das vezes deve-se a erro humano e, no entanto, a Mara atravessou o Atlântico hoje e tinha três pilotos no avião. A preferência humana é pelos pilotos, mas estes estão a verificar, vigiar, comunicam mais frequentemente com as pessoas, têm hoje um trabalho diferente, mas não foi eliminado. Muitos empregos serão afetados desta forma. Para fazer o trabalho de um piloto hoje, o seu nível e competências é mais elevado que quando era para um piloto em 1940 em que a sua perícia era impedir o avião de cair.

     

    Portugal deve fazer “upgrade” de força de trabalho


    “Portugal fez muito trabalho em muitos aspetos enquanto nação e que servem este ambiente de mudança. Possui ótimas infraestruturas tecnológicas - das mais fortes da Europa; as pessoas têm muito boas capacidades multilinguísticas; estão abertas a outras culturas e são adaptáveis à mudança. Em Portugal existe uma boa reserva de mão-de-obra qualificada; elevada componente de manufatura - o que é uma vantagem para criar maior riqueza -; tem salários mais baixos. Todavia, o futuro, comparando Portugal com outros países com política de salários baixos, tem de ser construído com uma força de trabalho competente”, afirma Jonas Prising.

    “Existem várias formas de Portugal ser muito competitivo enquanto nação de talento, aproveitando estrategicamente esta situação de melhoria económica deve ser feito um upgrade da força de trabalho e da sua capacidade de acrescentar valor porque Portugal é um ótimo destino na Europa e na União Europeia para certos trabalhos, processos, telecomunicações e manufatura. O que não significa o futuro seja semelhante, daí a necessidade de apetrechar com mais qualificações e competências a vossa força de trabalho”, acrescenta Prising. 

    Em "Vida Económica", por Dora Troncão
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