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    As regras do passado não vão servir para o futuro

    11.09.2017

    O chairman da ManpowerGroup fala de um mundo em acelerada mudança, algo a que o meio laboral, não ficará imune. «Tudo será diferente», diz Jonas Prising, um sueco que fala cinco idiomas, viveu em nove países e lidera um negócio que está um pouco por todo o mundo.

    Revista Human: Como olha para o futuro do trabalho?
    Jonas Prising: Trata-se de um tópico muito importante. Vivemos tempos de mudança por todo o mundo, e a área laboral não é exceção. A mudança, aliás, é muito disruptiva, é algo que pode comparar-se à revolução industrial. Muitas coisas estão a mudar devido a mudanças estruturais, que afetam a competitividade das empresas e dos próprios países. Temos a demografia, a tecnologia, as questões organizacionais, as dos próprios indivíduos, que têm múltiplas escolhas. É muito importante para as pessoas que consigam adaptar-se às mudanças que estão a acontecer um pouco por todo o mundo. As regras do passado não vão servir para o futuro. Tudo será diferente.

    Como atua a ManpowerGroup neste cenário?
    Nós estamos em 80 países, com três milhões e meio de pessoas a trabalhar anualmente. O nosso negócio foi o mesmo durante 55 anos. Mas há 10 ou 12 anos começámos a ver a mudança no mercado laboral, uma mudança que nos surpreendeu. Normalmente o mercado laboral comportava-se de acordo com os ciclos económicos. Havia um ciclo de crescimento económico e subia o emprego, com o recuo da economia o emprego regredia...

    E agora?
    Agora as mudanças são estruturais. A questão do envelhecimento da população, a evolução tecnológica. As pessoas com novas `skills' podem tirar vantagem da tecnologia... E temos mudanças políticas, o crescimento do populismo: Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Suécia... Isto muda tudo. Trata-se de uma reação ao que está a acontecer.

    Parte significativa das pessoas acredita que as coisas não vão mudar, ou não podem mudar...
    Falamos com governos, empresas, indivíduos... Temos a certeza de que a mudança de que nos apercebemos vai continuar. Pode gostar-se ou não, mas vai continuar, e de forma acelerada. Veja-se toda a legislação à volta da segurança do posto de trabalho... E onde fica a segurança em termos de emprego, ou empregabilidade? Esta questão vai ser muito mais importante.

    Os países com maior nível de progresso apostam em segurança de emprego. Singapura, França, Dinamarca... Não se pode continuar agarrado à ideia de que um determinado tipo de trabalho é o normal e o resto não. Isso acabou. Há `full-time', 'part-time', temporário, `outsourcing', muitas formas. As mudanças ditam que a legislação tem de adaptar-se, assim como a educação e a formação. Importa perceber onde as novas oportunidades estarão, porque vivemos uma revolução também ao nível das competências.


     

    «Vivemos tempos de mudança por todo o mundo, e a área laboral não é exceção. A mudança, aliás, é muito disruptiva, é algo que pode comparar-se à revolução industrial.»


    As coisas poderão mudar muito, digamos assim, em cinco anos?
    Acredito que será totalmente diferente.

    Sobretudo pela tecnologia?
    O impacto da tecnologia é muito importante. Há quem diga que devido à tecnologia muitos postos de trabalho vão desaparecer. Nós não acreditamos nisso. E quantas oportunidades de trabalho vão ser criadas? Acreditamos que mais postos de trabalho vão ser criados pela tecnologia do que perdidos. Pode no início não ser assim, mas depois será. O impacto da revolução tecnológica nas competências é tremendo. Daí que seja importante estar preparado para atingir novas competências, para acompanhar as novas tecnologias.

    Como é neste âmbito o papel da ManpowerGroup?
    Vemos que o ambiente que nos rodeia está a mudar rapidamente. As organizações devem ter grande agilidade, capacidade de adaptação a circunstâncias em mudança. Acreditamos que a nossa oferta global de talento, as nossas soluções, acreditamos que podem ser extremamente valiosas para as organizações. Podemos ajudá-las ao nível da flexibilidade e da agilidade. Não só numa perspetiva temporária mas também numa perspetiva permanente.
     
    Começámos em Portugal em 1962, e começámos como empresa de trabalho temporário, com a marca Manpower. Mas agora temos quatro marcas. Isto responde à crescente necessidade de flexibilidade, à crescente necessidade de alavancar a inovação tecnológica, à crescente necessidade de talento, de encontrar novas competências. No lado dos negócios acho que temos tremendas oportunidades de ajudar os clientes, as empresas, mas ao mesmo tempo podemos ajudar as pessoas que procuram emprego. Porque sabemos onde estão, entendemo-las, e sabemos onde poderão estar a trabalhar no futuro.

    Quando falamos no ambiente de mudança, não é só nas organizações. As pessoas que estão empregadas e as que procuram emprego têm de adaptar-se, e as organizações têm de fazer a sua parte também. Acreditamos que conseguimos ajudar as empresas e as pessoas neste encontro, que temos um papel importante na vida das pessoas, na formação, no emprego.
     

    «O impacto da tecnologia é muito importante. Há quem diga que devido à tecnologia muitos postos de trabalho vão desaparecer. Nós acreditamos que mais postos de trabalho vão ser criados pela tecnologia do que perdidos.»


    Neste ambiente, temas como igualdade de género, diversidade de gerações no mercado de trabalho, equilíbrio vida profissional/ vida pessoal, além de outros, perdem importância?
    Não. Serão mais importantes ainda. Por exemplo, a população está a envelhecer na Europa. O número de pessoas que suportam o crescimento económico reduz-se, e a participação das mulheres é menor do que a dos homens. O crescimento económico é mais uma razão para trazer mais mulheres para o mercado de trabalho, para todos os níveis.

    Vivendo nos Estados Unidos e trabalhando numa multinacional norte-americana, como viu a chegada de Donald Trump ao poder?
    Surgiu a ideia de que muitas pessoas beneficiariam com a mudança, sobretudo nos negócios. Mas parte da população sente que foi deixada para trás. De qualquer forma, estou muito confiante. Há coisas que podem ser realmente boas: menos burocracia, menos regulação, menos impostos, investimento em infraestruturas. Toda a gente concorda com isto. Já a maneira como se fala de imigração ou comércio, se levar a más aplicações pode ser uma má ideia. Somos pelo comércio livre. E nos nossos valores está claro que acreditamos na diversidade, na liberdade, em falar verdade. São fundamentos do que somos e daquilo em que todos os nossos líderes sempre acreditaram.

     
    Texto de António Manuel Venda, na edição de setembro de 2017 da Revista Human
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