Trabalhadores usam mais IA, mas sentem-se menos preparados: confiança cai pela primeira vez em três anos
Num contexto de transformação acelerada do mundo do trabalho, impulsionada pela inteligência artificial, os profissionais estão a usar cada vez mais tecnologia, mas sentem-se menos preparados para acompanhar essa evolução. Esta é uma das principais conclusões do Global Talent Barometer 2026, divulgado pelo ManpowerGroup.
O Índice Global do Global Talent Barometer 2026 situa-se nos 67%, registando uma ligeira descida face ao ano anterior. Este abrandamento é explicado sobretudo pela quebra do Índice de Confiança, enquanto os índices de Bem-estar e Satisfação no Trabalho se mantêm globalmente estáveis.
O estudo revela um paradoxo claro: a adoção de ferramentas de IA continua a crescer, mas a confiança dos trabalhadores na sua utilização está a cair. Ao mesmo tempo, mantém-se a perceção de competências para o presente, mas aumenta a insegurança em relação ao futuro.
“Os dados mostram um desalinhamento claro: a adoção de inteligência artificial está a avançar mais rápido do que a confiança dos profissionais na sua utilização. Este não é um desafio tecnológico, é um desafio de liderança. As organizações precisam de garantir resultados no presente, mas também de investir na capacitação das equipas para o futuro. Sem esse equilíbrio, o risco é agravar o fosso entre inovação e preparação das pessoas.”
Rui Teixeira, Country Manager ManpowerGroup Portugal
Confiança em queda apesar de competências estáveis
O índice global de confiança recuou para 73%, menos três pontos percentuais face a 2025, marcando a primeira quebra deste indicador em três anos. Ainda assim, alguns sinais mantêm-se estáveis: 89% dos profissionais dizem confiar nas suas competências atuais e 62% acreditam ter oportunidades de progressão dentro das suas organizações.
Também no acesso ao desenvolvimento profissional não se verificam alterações significativas, com 76% dos trabalhadores a referirem ter condições para adquirir novas competências.
O paradoxo da inteligência artificial no trabalho
O indicador mais pressionado é a confiança na utilização de tecnologia: apenas 64% dos trabalhadores afirmam sentir-se capazes de utilizar as ferramentas tecnológicas mais recentes do seu setor, uma queda de 14 pontos percentuais em relação ao ano passado.
O estudo destaca assim um fenómeno particularmente relevante: enquanto a adoção de inteligência artificial aumentou 13%, a confiança na sua utilização caiu 18%. Ou seja, mais pessoas utilizam IA no dia a dia, mas menos se sentem preparadas para tirar partido dela.
Este cenário é agravado por uma lacuna na formação: cerca de 56% dos trabalhadores não tiveram formação recente e 57% não receberam mentoria, o que limita a capacidade de adaptação à velocidade da mudança tecnológica.
Bem-estar mantém-se estável, mas o stress persiste
Apesar das pressões, o índice de bem-estar mantém-se estável em 67%. Ainda assim, os níveis de stress continuam elevados: 49% dos trabalhadores reportam stress diário e 63% afirmam ter experienciado burnout recentemente, apontando o excesso de trabalho e o stress como principais causas.
Satisfação no trabalho resiste, mas sem grandes melhorias
A satisfação no trabalho mantém-se estável em 62%, num contexto de maior estabilidade nas dinâmicas de retenção. Ainda assim, emerge o fenómeno de job hugging, que substitui a lógica de rotatividade profissional: os trabalhadores não estão a sair, estão antes a permanecer, enquanto aguardam que se construa a ponte entre o que sabem fazer hoje e as competências de que vão precisar no futuro.
Um desafio para líderes e organizações
Os resultados do Global Talent Barometer 2026 mostram um mercado de trabalho em transição: mais digital, mais dependente de IA, mas ainda pouco preparado do ponto de vista humano e formativo.
A principal conclusão é clara: a tecnologia avança rapidamente, mas a confiança e a preparação dos profissionais não estão a acompanhar o mesmo ritmo. Para as organizações, o desafio já não é apenas tecnológico — é sobretudo de liderança, formação e capacitação contínua.
Para compreender em detalhe como estas tendências se refletem por setor, função, modelo de trabalho, geração, género e outras dimensões relevantes, faça o download do estudo completo e aceda a uma análise aprofundada do mercado de trabalho e da evolução do bem-estar, satisfação no trabalho e confiança dos profissionais.